Marcus Quintão
← Todos os artigos

Artigo

O ministério de toda a igreja e os limites de concentrar tudo no pastor

Ainda não há avaliações

Leitura em voz alta

Ouça este artigo

A leitura começa somente quando você clicar. As vozes dependem do seu navegador e aparelho; algumas precisam de internet. Ao pausar, a leitura pode retomar do início do trecho atual.

Cristo prepara seu povo para servir e faz o corpo crescer pela participação de seus membros

O pastor precisa se ausentar por alguns dias. Uma visita é adiada, alguém deixa de receber uma ligação e uma conversa importante fica sem encaminhamento. A comunidade possui pessoas maduras, mas quase ninguém se sente responsável por essas necessidades. Há muitos participantes e pouca iniciativa. Essa dependência pode parecer uma demonstração de respeito à liderança. Com o tempo, porém, revela uma pergunta que precisamos enfrentar: estamos formando uma igreja que serve ou uma comunidade que espera pelo serviço de uma única pessoa?

Cristo dá pessoas para preparar pessoas

Efésios 4 situa o ministério dentro da vida do corpo de Cristo. Paulo começa exortando os irmãos a conservar a unidade do Espírito e reconhece que essa unidade possui um fundamento recebido: há um só Senhor, uma só fé e um só batismo. A diversidade dos membros existe dentro desse pertencimento comum.

[…] para que o corpo de Cristo seja edificado, […]

Efésios 4:12 (NVI 2011, trecho)

A partir do versículo 7, o apóstolo fala da graça concedida conforme a medida do dom de Cristo. O Senhor exaltado não abandona sua igreja a uma uniformidade sem participação. Ele concede dons e, nos versículos 11–12, relaciona diferentes ministérios ao preparo dos santos para o serviço e à edificação do corpo.

Esse preparo exige liderança real. Pastores e mestres não são acessórios dispensáveis. A igreja precisa de ensino fiel, direção e cuidado responsável. O propósito dessa liderança, entretanto, inclui formar outras pessoas para uma participação amadurecida. O texto não descreve um corpo no qual alguns executam toda a vida cristã e os demais apenas recebem.

O alvo aparece nos versículos seguintes: unidade da fé, conhecimento do Filho de Deus e maturidade. Paulo se preocupa com pessoas que não sejam levadas de um lado para outro por ensinos enganosos. Preparar para servir envolve formar convicções, caráter e discernimento. Uma escala preenchida pode ser útil, mas ainda não demonstra que esse preparo aconteceu.

No versículo 16, Cristo permanece como aquele de quem o corpo recebe sua direção e seu crescimento. A participação dos membros não divide o senhorio de Jesus. Ela expressa a vida que procede dele. A comunidade se edifica em amor quando cada parte realiza sua função.

O valor de um serviço que nem sempre aparece

É possível ouvir essa passagem e pensar imediatamente nas funções visíveis do culto. Elas têm importância, mas a vida do corpo alcança relações que não cabem numa programação. Existe serviço em acompanhar uma pessoa fragilizada, explicar a fé a quem começou a caminhar e repartir recursos com quem atravessa uma necessidade.

Em 1Pedro 4.10–11, os dons recebidos são relacionados ao serviço mútuo e à administração da graça de Deus. Pedro fala tanto da comunicação da Palavra quanto do serviço realizado com a força que Deus supre. O resultado esperado é a glorificação de Deus por meio de Jesus Cristo.

Cada um exerça o dom que recebeu para servir os outros, […]

1 Pedro 4:10 (NVI 2011, trecho)

Essa perspectiva retira de nós a pretensão de possuir os recursos da igreja. Aquilo que recebemos foi confiado para o bem do outro. Um dom não comprova superioridade pessoal nem autoriza alguém a se considerar proprietário de um espaço. A pergunta sobre sua utilização precisa incluir as pessoas que deveriam ser beneficiadas.

Também permite reconhecer contribuições discretas. Uma irmã que sabe acolher alguém recém-chegado pode participar de uma tarefa que ninguém registrou formalmente. Um irmão atento pode perceber que outro se isolou e oferecer companhia. A ausência de um cargo não torna esses gestos menos relacionados à vida do corpo.

Há, naturalmente, responsabilidades que exigem reconhecimento público, preparo específico e critérios de acompanhamento. A disposição de servir não torna uma pessoa automaticamente apta a ensinar, aconselhar em situações complexas ou assumir autoridade. Reconhecer os dons inclui avaliar seu exercício com responsabilidade.

Delegar tarefas e formar pessoas

Uma comunidade pode distribuir muitas tarefas e continuar profundamente centralizada. Isso acontece quando toda decisão permanece concentrada no mesmo líder, quando ninguém compreende o sentido do que faz ou quando uma falha só produz repreensão, sem orientação para o amadurecimento.

Formar alguém exige mais tempo do que transferir uma obrigação. É preciso explicar o fundamento bíblico do serviço, apresentar as responsabilidades e permitir que a pessoa faça perguntas. Depois, acompanhar sua prática e conversar sobre dificuldades que surgiram no caminho.

A orientação de Paulo a Timóteo, em 2Timóteo 2.1–2, relaciona a força recebida na graça de Cristo à transmissão do ensino a pessoas fiéis e capazes de ensinar outras. O processo não se encerra na competência do primeiro responsável. Há atenção à continuidade da formação e à capacidade de outros participarem dela.

Essa passagem não oferece um programa administrativo pronto para qualquer igreja. Ela estabelece uma direção importante: o ensino confiado à liderança precisa alcançar pessoas que possam transmiti-lo com fidelidade. O investimento em outros faz parte do serviço que a liderança recebeu.

A convivência ajuda nesse preparo. Quem acompanha uma visita aprende algo que talvez não tenha percebido numa aula. Pode observar como ouvir sem interromper, como reconhecer os próprios limites e como usar a Palavra sem oferecer respostas apressadas. A conversa posterior permite examinar o que foi feito e por quê.

Esse acompanhamento também protege quem serve. Uma pessoa não deve ser lançada sozinha numa responsabilidade apenas porque demonstrou disposição. Quando a igreja chama alguém para uma tarefa, precisa considerar que orientação, condições e apoio está oferecendo.

Os limites que preservam o cuidado

A participação de todos não significa que todos farão tudo. Os membros têm responsabilidades familiares, condições de saúde e diferentes possibilidades de dedicação. O corpo é servido por essa diversidade quando ela é reconhecida com honestidade.

Uma cultura de disponibilidade permanente pode produzir culpa e esconder sobrecarga. Quem cuida dos filhos, trabalha em jornadas extensas ou atravessa uma limitação não precisa provar pertencimento assumindo o mesmo número de tarefas de outra pessoa. O evangelho nos reúne em Cristo; nossa aceitação não depende de uma competição por produtividade religiosa.

A liderança precisa igualmente reconhecer seus limites. Quando o pastor se apresenta como indispensável para toda decisão e todo cuidado, pode dificultar o desenvolvimento dos membros. Em outros casos, são os próprios irmãos que resistem à participação de qualquer pessoa que não seja ele. As duas situações exigem ensino e mudanças graduais de prática.

Também convém definir limites de competência. Ouvir alguém com respeito e orar junto não equivale a saber lidar com qualquer problema. Certas necessidades pedem profissionais preparados, proteção e uma rede de cuidado que ultrapassa os recursos de uma equipe. Reconhecer isso é responsabilidade, e não fracasso espiritual.

A distribuição do ministério deve ser acompanhada de prestação de contas. Compartilhar responsabilidades não pode criar pequenos espaços de poder sem supervisão. Quem ensina e cuida continua precisando de correção, avaliação e apoio.

O modelo não se resolve apenas pela criação de novas equipes. Uma estrutura pode multiplicar os nomes dos responsáveis e preservar a mesma dependência de autorização para cada passo. O que precisa amadurecer é a compreensão de que cada membro pertence ao corpo e participa do amor com que Cristo cuida de sua igreja.

Uma comunidade que aprende a cuidar

Timothy Keller, em Igreja Centrada, relaciona a centralidade do evangelho à formação de membros e lideranças para uma vida de testemunho e serviço. O pastor não precisa concentrar em si todas as frentes de atuação. Essa observação merece ser recebida a partir do propósito de Efésios 4: preparar pessoas para que o corpo seja edificado.

Isso pode começar com uma necessidade conhecida. Talvez haja visitas que ficam sempre para depois ou novos membros que não encontram acompanhamento. Em vez de responder apenas acrescentando mais uma obrigação à agenda pastoral, a liderança pode perguntar quem precisa ser preparado para participar desse cuidado.

O primeiro passo talvez seja convidar alguém para acompanhar uma visita, ler com essa pessoa as passagens pertinentes e conversar depois sobre o encontro. Ao longo do tempo, a responsabilidade pode crescer conforme a maturidade e a capacidade demonstradas. O processo exige paciência, especialmente quando uma comunidade se acostumou a receber tudo de poucos.

Quem participa também precisa aceitar que aprender inclui ser corrigido. O serviço cristão não é uma oportunidade para confirmar que já sabemos. Podemos descobrir nossa pressa, nossa dificuldade de ouvir ou nosso desejo de receber reconhecimento. Essas questões fazem parte do discipulado e devem ser tratadas na graça de Cristo.

Uma igreja assim continua precisando de seus pastores. A diferença é que sua presença passa a produzir formação, em lugar de dependência sem crescimento. Eles ensinam, orientam e cuidam, ao mesmo tempo que reconhecem a ação de Deus por meio de outros membros.

Quando o pastor precisar se ausentar, o cuidado não terá de desaparecer com ele. Haverá irmãos que sabem procurar quem está sofrendo, repartir uma necessidade e pedir ajuda quando não conseguem responder sozinhos. A comunidade poderá reconhecer nessa participação algo mais profundo do que uma boa divisão de tarefas: a vida de um corpo que cresce a partir de sua cabeça, Jesus Cristo.

A participação dos membros e a edificação em amor são temas do projeto Igreja Corpo de Cristo. Conheça a proposta e acompanhe o desenvolvimento de materiais voltados à compreensão bíblica da vida comunitária. Se o serviço se tornou uma tentativa de provar valor ou garantir aceitação, conheça também Órfãos de Crachá – De Escravo a Filho Amado, que aprofunda essa reflexão sobre identidade e graça.

Os trechos bíblicos em destaque são da Nova Versão Internacional (NVI 2011). Texto bíblico © 1993, 2000, 2011, Biblica, Inc. As exposições e aplicações pastorais são do autor.

Referência bibliográfica: KELLER, Timothy. Igreja Centrada.

Continue a leitura

Obras e projetos relacionados

Participe da reflexão

Sua leitura também tem voz.

Compartilhe sua reflexão e avalie este artigo. Conversamos com respeito, atenção às Escrituras e cuidado com as pessoas.

Ainda não há avaliações

Entre para comentar ou avaliar.

Informe seu e-mail e confirme o código de seis dígitos que enviaremos. Se já cadastrou uma senha no site, pode usá-la. O seu e-mail não aparece nos comentários.

Já tenho senha no site

Você pode participar sem assinar a newsletter. Ao confirmar o código, criamos ou reconhecemos seu acesso de leitor, sem acesso à administração. Privacidade e uso dos dados.

Comentários (0)

A conversa pode começar com a sua reflexão. Os comentários aprovados aparecerão aqui.

O nome escolhido e o comentário aprovado são públicos. O e-mail identifica a participação e não é divulgado. As avaliações exibem somente a média e a quantidade. Privacidade e uso dos dados.

Voltar ao acervo →