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As necessidades que apresentamos ao Pai e a formação de uma comunidade voltada para o testemunho de Cristo.
É legítimo que uma igreja ore por quem precisa de emprego, por uma cirurgia e pelos recursos necessários para pagar suas contas. O próprio Senhor nos ensinou a pedir o pão de cada dia. Ainda assim, podemos observar uma limitação quando toda oração comunitária termina no desejo de recuperar segurança e manter as atividades funcionando.
Talvez conheçamos as despesas da instituição com mais detalhes do que conhecemos as pessoas que vivem ao nosso redor. Talvez peçamos por uma nova oportunidade de trabalho, mas raramente por sabedoria para agir com justiça no trabalho que já temos. A maneira de orar não oferece um retrato completo da comunidade; pode, contudo, revelar o horizonte para o qual estamos olhando.
Atos 4.23–31 nos permite acompanhar uma igreja que leva a Deus uma ameaça concreta. Sua oração não ignora o perigo. Ela o apresenta dentro de uma compreensão maior da soberania divina e da missão recebida de Jesus. Essa combinação pode nos ajudar a revisar nossos próprios encontros.
[…] capacita os teus servos para anunciarem a tua palavra corajosamente.
Atos 4:29 (NVI 2011, trecho)
Uma ameaça real é apresentada a Deus
Pedro e João retornam à comunidade depois de serem interrogados e ameaçados pelas autoridades. O anúncio da ressurreição havia provocado oposição. Ao ouvir o relato, os irmãos se dirigem a Deus como Criador e reconhecem, à luz das Escrituras, a resistência humana ao seu Ungido.
Eles relacionam essa resistência ao que aconteceu com Jesus. O Filho foi rejeitado, mas a oposição não tornou Deus impotente. A morte e a ressurreição de Cristo dão à comunidade condições para interpretar o presente sem imaginar que seus adversários possuem o domínio final da história.
Essa lembrança não produz distância emocional. Os irmãos pedem que Deus considere as ameaças. Há uma situação a ser vista e enfrentada. A oração bíblica oferece lugar para contar ao Pai o que nos assusta, inclusive quando não sabemos organizar todos os nossos sentimentos.
Podemos aprender a começar por Deus sem fingir que a dificuldade é pequena. Adoração não exige negar o sofrimento. Ela nos ajuda a apresentar a dificuldade a alguém maior do que ela e a reconhecer que nossa vida está incluída em seus propósitos.
Coragem para continuar obedecendo
O pedido central da comunidade é por ousadia para anunciar a Palavra. Os irmãos também pedem que Deus estenda a mão para curar e realizar sinais pelo nome de Jesus. O texto descreve uma igreja dependente da ação divina, interessada na continuidade do testemunho em um ambiente hostil.
Seria inadequado concluir que cristãos nunca podem pedir proteção. O ponto desta oração está naquilo que a ameaça poderia interromper: a fidelidade ao chamado recebido. Diante do risco, a comunidade pede capacidade para permanecer obediente.
Isso nos oferece perguntas concretas. Quando uma dificuldade aparece, pedimos somente que a situação termine ou também que Deus nos ensine a agir nela? Ao orarmos por um conflito familiar, lembramos de pedir mansidão e honestidade para as conversas necessárias? Quando alguém enfrenta pressão profissional, pedimos condições para que preserve a integridade?
Coragem cristã não é gosto por confronto. Em Colossenses 4.2–6, Paulo associa a oração por oportunidades para anunciar a mensagem ao cuidado com a maneira de falar. É preciso clareza, sabedoria no relacionamento com os de fora e uma palavra apropriada a cada pessoa. A ousadia que buscamos deve conviver com essa atenção.
Necessidades diárias dentro de um horizonte maior
Nas discussões sobre Igreja Centrada, aparece a distinção pastoral entre orações voltadas à manutenção e orações voltadas ao avanço do testemunho. Essa linguagem pode ajudar a perceber um desequilíbrio. Ela não deve ser transformada em duas classes obrigatórias de oração nem em uma competição entre pedidos considerados pequenos e grandes.
Pedir pelo tratamento de um irmão não é espiritualmente inferior a pedir por uma oportunidade missionária. Uma família sem alimento precisa ser lembrada diante de Deus e receber auxílio. O problema surge quando a comunidade só consegue imaginar a ação divina como preservação de seu conforto ou continuidade de sua organização.
A oração pode ampliar nosso olhar dentro das próprias necessidades diárias. Ao pedir pelo desempregado, podemos pedir também sabedoria para oferecer apoio sem constrangê-lo. Ao apresentar as finanças da igreja, podemos perguntar se estamos administrando os recursos com transparência e prioridades adequadas. Ao pedir por crescimento, podemos incluir disposição para receber pessoas diferentes das que já estão conosco.
Nesse movimento, deixamos de tratar a oração como uma lista de resultados desvinculada da formação de quem ora. Levamos pedidos ao Pai e nos colocamos à sua disposição. Algumas respostas poderão envolver responsabilidades que preferiríamos delegar a outras pessoas.
Pessoas que aprendemos a carregar diante do Pai
Efésios 3.14–21 amplia nossa compreensão do que podemos pedir pelos irmãos. Paulo ora para que sejam fortalecidos pelo Espírito, que Cristo habite em seus corações mediante a fé e que conheçam seu amor, junto com os santos. Seu interesse alcança a profundidade da vida deles com Deus.
[…] para que Cristo habite no coração de vocês mediante a fé; […]
Efésios 3:17 (NVI 2011, trecho)
Isso nos ensina a interceder por alguém sem reduzir sua história ao problema mais urgente. Quem atravessa uma enfermidade precisa de cuidado e pode ser lembrado também em sua esperança, em seus relacionamentos e em sua capacidade de receber ajuda. Quem exerce liderança precisa de sabedoria para servir, disposição para ouvir correção e perseverança no amor.
Uma reunião de oração ganha densidade quando os pedidos deixam de ser categorias abstratas. Há pessoas com nome, história e necessidades que podemos conhecer com respeito. A exposição pública de detalhes íntimos não é necessária para que a comunidade interceda. O cuidado com o que pode ser compartilhado faz parte do amor por quem está sendo lembrado.
Também podemos incluir aqueles com quem temos dificuldade. A intercessão não resolve sozinha todos os conflitos, mas confronta a facilidade de transformar o outro em adversário permanente. Pedir o bem de alguém diante do Pai nos chama a examinar a maneira como falamos e agimos em relação a essa pessoa.
Um encontro de oração que continua na semana
Rever a oração comunitária não exige criar um programa complicado. Podemos observar, ao longo de alguns encontros, quais assuntos sempre aparecem e quais pessoas permanecem ausentes. Essa observação precisa ser feita com humildade, sem fiscalizar a espiritualidade de quem ora.
A leitura de uma oração bíblica pode ajudar a comunidade a encontrar palavras e ampliar seus pedidos. Atos 4 favorece a intercessão por coragem; Efésios 3, pelo crescimento no conhecimento do amor de Cristo; Colossenses 4, por oportunidades e sabedoria no testemunho. O texto deve ser compreendido em seu contexto, para que não seja usado como promessa automática de um resultado desejado.
Vale também acompanhar o que foi apresentado. Houve uma necessidade material que podemos ajudar a suprir? Alguém pediu companhia e continua esperando contato? Há uma conversa que precisa ser retomada? O acompanhamento impede que histórias pessoais sejam consumidas como assuntos de uma reunião e esquecidas logo depois.
Nem sempre saberemos como Deus está respondendo. Há pedidos que permanecem por muito tempo e situações que se agravam. A perseverança em oração não depende de uma sequência visível de soluções. Ela repousa na confiança de que podemos nos aproximar do Pai por meio de Cristo e continuar amando as pessoas enquanto esperamos.
A igreja pode pedir pelo pão de hoje e pela coragem para testemunhar amanhã. Pode suplicar alívio e pedir maturidade no sofrimento. Ao aprender a orar dessa maneira, começa a perceber que suas prioridades estão sendo educadas pela Palavra. A oração se torna parte da formação de uma comunidade que conhece suas necessidades, confia no cuidado do Pai e assume o compromisso de servir.
O capítulo 12, Orando Pelos Outros: a Oração Apostólica do Filho, de ORAÇÃO – O Dia em Que Minha Oração Virou Lista de Compras, aprofunda a intercessão. A dimensão comunitária também integra o projeto Ser e Viver Igreja.
Os trechos bíblicos em destaque são da Nova Versão Internacional (NVI 2011). Texto bíblico © 1993, 2000, 2011, Biblica, Inc. As exposições e aplicações pastorais são do autor.
Referência bibliográfica: KELLER, Timothy. Igreja Centrada.
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