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A graça nos acolhe em Cristo e dá origem a uma obediência livre da tentativa de merecer
Você procura lembrar tudo o que fez direito naquela semana. Participou das reuniões, ajudou alguém, conseguiu manter a leitura bíblica. Quando pensa em se aproximar de Deus, essa lista parece oferecer algum alívio. Então surge a lembrança de uma queda, e toda a segurança desaparece. Se nossa aceitação oscila conforme a avaliação do próprio desempenho, até a obediência pode se tornar cansativa. Efésios 2 nos conduz a um fundamento mais firme: o que Deus fez por nós em Cristo.
A iniciativa da misericórdia
Paulo começa descrevendo uma condição que não poderia ser resolvida apenas com aperfeiçoamento de hábitos. Em Efésios 2.1–3, ele fala da morte em transgressões e pecados, de uma vida submetida a desejos e caminhos que afastam de Deus. O problema alcança nossa relação com o Senhor e a direção de toda a existência.
A mudança decisiva aparece na iniciativa divina. Por causa de seu grande amor e de sua misericórdia, Deus nos dá vida com Cristo. O movimento do texto conduz nossa atenção da incapacidade humana para a ação graciosa do Salvador.
Essa ordem importa. Não fomos amados porque conseguimos produzir uma vida que finalmente impressionasse Deus. A salvação começa em sua misericórdia. Ele nos alcança quando não temos como apresentar nossa justiça como condição para sermos recebidos.
Paulo também não trata a salvação como uma melhora de reputação. Dar vida com Cristo significa uma transformação de pertencimento e de futuro. A pessoa reconciliada com Deus passa a existir em relação com aquele que morreu e ressuscitou por ela.
A fé recebe o que a graça oferece
Efésios 2.8–9 une graça, salvação e fé, retirando de nós o motivo para vanglória. A graça aponta para o favor de Deus; a fé é o meio pelo qual recebemos a salvação em Cristo. Nossa confiança se volta para o Salvador, em vez de fazer da intensidade de crer uma nova conquista pessoal.
Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, […]
Efésios 2:8 (NVI 2011, trecho)
Podemos compreender essa relação observando uma dificuldade comum. Alguém ouve que não precisa merecer a graça, mas logo começa a tentar merecê-la pela qualidade da própria fé. Passa a vigiar cada dúvida, cada oscilação e cada emoção, como se precisasse apresentar uma confiança impecável para ser acolhido.
Assim, o centro continua sendo o próprio desempenho. Apenas mudamos o nome daquilo que estamos tentando oferecer.
O evangelho nos chama a confiar em Cristo. A fé tem importância real; Paulo não a retira da resposta à graça. Mas ela não transforma o crente em seu próprio salvador. Quem salva é o Senhor, por sua obra redentora. Em Romanos 5.1–2, a paz com Deus e o acesso à graça são apresentados por meio de Jesus Cristo.
Isso permite que nos aproximemos com sinceridade. Não precisamos ocultar fragilidades nem construir uma imagem de competência espiritual. Podemos confessar o pecado e pedir socorro porque a suficiência de Cristo é maior do que nossa capacidade de demonstrar segurança.
A nova vida tem um caminho
A leitura precisa continuar até Efésios 2.10. A mesma passagem que exclui as obras como fundamento de merecimento apresenta as boas obras como parte da finalidade da nova vida. Deus nos recria em Cristo para que andemos nelas.
Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, […]
Efésios 2:10 (NVI 2011, trecho)
A graça, portanto, alcança nossa conduta. Ela nos acolhe e nos forma. Aquele que foi recebido em Cristo é chamado a abandonar a mentira, tratar pessoas com dignidade e assumir responsabilidades que antes evitava.
Uma obediência orientada pela gratidão tem uma qualidade diferente da obediência movida pela tentativa de negociar aceitação. Podemos servir sem calcular quanto reconhecimento isso nos dará. Podemos corrigir uma prática errada sem imaginar que a confissão tornará Deus misericordioso pela primeira vez.
Também podemos receber correção. A bondade do Pai não significa indiferença ao pecado. Há disciplina, consequências e aprendizado na vida dos filhos. O amor que nos acolhe é o mesmo que nos conduz à santificação.
A diferença aparece numa situação simples. Ao perceber que feriu alguém, o cristão não precisa escolher entre negar o erro para preservar sua imagem e afundar na ideia de que perdeu qualquer possibilidade de aproximação. Pode reconhecer o que fez, buscar perdão e reparar o dano possível, sustentado pela graça.
Servir sem manter uma conta aberta
Examine uma área em que sua obediência se tornou uma cobrança silenciosa. Talvez você esteja esperando que Deus lhe dê uma resposta específica porque tem servido muito. Talvez o ressentimento surja quando outra pessoa recebe atenção ou uma oportunidade que você considera merecer.
Esses movimentos revelam quanto precisamos reaprender a viver como quem recebeu. Ninguém sai da condição de dependência da graça para se tornar credor de Deus.
Isso não torna nosso serviço irrelevante. O Pai vê o cuidado oferecido, a fidelidade discreta e o trabalho realizado com amor. Podemos confiar nele sem converter esse cuidado numa negociação. A alegria de servir cresce quando o próximo deixa de ser um instrumento para comprovar nosso valor.
Há uma liberdade possível aqui: fazer o bem porque fomos alcançados pelo bem de Deus. Descansar em Cristo e, desse lugar, trabalhar com dedicação. Reconhecer que nada do que oferecemos compra a salvação, enquanto tudo o que somos é convocado a responder a ela.
Se você se aproxima de Deus hoje com uma lista de acertos numa mão e de fracassos na outra, coloque ambas diante dele. Confesse o que precisa ser confessado e agradeça pelo que sua graça já tornou possível. Depois volte à tarefa que lhe cabe. Há boas obras preparadas para seus passos, e você pode realizá-las como alguém acolhido em Cristo.
Os trechos identificados como NVI 2011 são da Nova Versão Internacional de 2011. Texto bíblico © 1993, 2000, 2011, Biblica, Inc. As exposições e aplicações pastorais são do autor.
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